do Nogueira (73/038)
Published by Omyasuda on 31/3/2008 (728 reads)
Caro Yasuda,
O material que encaminho é uma carta, ou manuscrito, mas diria mesmo que foi um desabafo que escrevi na frente e verso de uma cartolina, daquelas que vem por dentro das camisas, pois já havia arrumado minha mala e não tinha mais papel disponível. Portanto escrevi naqueles minutos difíceis ,pouco antes de sair do AP na AFA, que se encontrava vazio pois todos estavam em aula.
Não foi encaminhado a ninguém especificamente, e talvez a todos nós. Por isso simplesmente deixei-o dentro do armário e encostei a porta.
Posso te dizer que foi um dos momentos mais difíceis da minha vida, mais do que deixar a força aérea, foi ter que deixar meus amigos, a nossa turma de 73. Somente naquele momento percebi como seria difícil e como eram fortes os nossos vínculos.
Porém, estava feito. Não havia mais como mudar. O vôo solo é também um momento muito difícil, você está sozinho dentro do avião, mas sabe que quando pousar, lá estarão seus amigos de braços abertos para recebê-lo.
Deixar a FAB é mais difícil, pois você decola em um vôo igualmente sozinho, apenas que dessa vez sem pista para retornar e sem amigos para abraçá-los quando pousar.
Digo isso para ressaltar como foi e como é importante ter uma associação da Turma, como é importante saber dos amigos e manter contato. Isso pra mim foi fundamental pois se tive forças para continuar e superar toda sorte de dificuldades, foi lembrando-me a cada dia da nossa turma, do que aprendemos e dos nossos ideais.
Não poderia decepcioná-los jamais. Tenho certeza que assim como eu, muitos outros também seguiram em frente, amparado na amizade da turma de 73
Por isso, Caro Yasuda , sou muito grato a todos mas especialmente ao Lazzarott e ao Úmile nesse período quando deixei a FAB, pelas palavras de amizade que recebi através de cartas, algumas das quais te encaminho agora, para arquivo e mesmo consulta a quem tiver interesse.
Um abraço
Nogueira 73/038
Texto escrito pelo Nogueira (73/038) em cartolina "Alma" de camisa, desaparecido deste então, foi encontrado na Arca da Aliança
No primeiro dia que aqui pisei, eu escrevi minhas impressões sobre a AFA. Tudo que senti que pensei, todas as apreensões e dúvidas com relação ao futuro foram escritas no meu diário de bordo. Hoje, quando deixo essa Academia a qual já havia me acostumado e a qual aprendera a amar, não poderia deixar de escrever como me sinto.
É um sentimento estranho que normalmente fica acomodado, mas que começa a crescer, a crescer, a medida que se aproxima a hora de partir definitivamente. É uma sensação de alegria e tristeza, de vazio e preocupações, é como se nossa cabeça girasse, é como estar em órbita, perde-se a noção das coisas, apenas os sentimentos, por mais que se queira sufocá-los, apenas eles existem e marcam sua presença.
Sinto que está sendo arrancado da minha alma, pequenos pedaços, e apesar de não serem pedaços de matéria, sangram profundamente.
A vida é estranha, as vezes, fria, insensível, cruel, desumana . O destino nos leva a determinadas partes, nos afeiçoa a determinadas coisas e pessoas e depois nos dá uma ordem, parta, deixe aquilo que você despreocupadamente ama. Não há como lutar, como enfrentar, porque é preciso ser feito, tem que ser feito, mas porque. Por tudo e por nada, eu não entendo, não quero entender pra não sentir mais ainda.
Muitos já passaram pelo que passei, e já sentiram o que sinto. A pior coisa do mundo é ter que partir, abandonar os amigos, as coisas já costumeiras,deixar aqueles aos quais já tínhamos nos afeiçoados como irmãos, deixar aqueles que estiveram ao nosso lado e nos conheceram, na manifestação sem obstáculos da nossa personalidade, deixar aqueles que sofreram o que sofremos e sorriram o que sorrimos.
Deixar sabendo que a volta é difícil, deixar sabendo que possivelmente jamais viveremos as mesmas situações, que jamais passaremos os mesmos momentos. Saber que aqueles que fizeram parte da nossa vida, aqueles que deixaram seus nomes escritos nas páginas do livro da nossa vida, não viverão mais a nossa realidade. Não...,viverão sim, viverão num lugar ainda mais importante,ainda mais inesquecível, viverão em nossas mentes e em nossos corações. Viverão na galeria daqueles que jamais serão esquecidos, na galeria dos verdadeiros amigos.
Parto fisicamente, minha alma é infinita, interminável, como aquele que a criou, e por isso ela está em todos os lugares que eu amo, e pertence a todos aqueles que sintam a importância de nunca se deixar as coisas sem um toque de beleza e amizade. Minha alma fica aonde não posso ficar ela jamais parte, ela torce e pede para que tudo continue a correr bem e para que o perfeito equilíbrio da vida, jamais seja afetado.
Nogueira 73/038 1976
Carta do Lazzarotti (73/029) para o Nogueira (73/038)
SBYS, 11 DE AGOSTO DE 1976
Prezado Nogueira,
Aqui está tudo bem, graças a Deus. Todo mundo meio casado, reclamando férias, mas tocando o barco pra frente.
Talvez v. estranhe eu estar escrevendo novamente. Em parte é para suprir a falta de assunto da primeira carta, que creio já deve ter chegado aí. Estou escrevendo motivado principalmente por um “manuscrito” que achei hoje, caído dentro do seu armário semi- aberto.
É até engraçado, pois faz tanto tempo que você saiu e só hoje esse papel aparece . E olha que o seu armário sempre esteve aberto, até parece que aqui dentro a gente não tem tempo de reparar nas coisas que ficam a nossa volta. Hoje, acho que o vento soprou mais forte - e eis que eu avisto um papel escrito nos dois lados, que você escreveu, ao que parece, no dia em que iria viajar – creio que você se lembra.
Vi também a sua garrafinha de vinho – eu já a tinha visto outras vezes e quando a vejo, tenho a impressão que você ainda está aqui, dando alegria ao despertar da moçada. O pessoal acorda com uma cara feia que dá medo – e eu não me excluo.
Mas voltando a falar do “manuscrito” eu confesso que fiquei impressionado ao lê-lo. E me senti obrigado a escrever, pelo menos pra você sentir que tudo aquilo que você sentiu alguém pôde compreender. Você traduziu exatamente aquilo que todos nós temos medo de vir as sentir um dia – a gente sabe que na hora de partir acontecem tais coisas.
Eu queria dizer pra você qualquer dia – não disse na outra carta – que no dia que você saiu, ficou pairando algo estranho aqui no apartamento, só que ninguém sabia explicar o que era. O Úmile estava bastante emocionado. Todos estavam – mas também queriam ver você partir alegre, por isso disfarçavam.
Em resumo, acho que só na hora que você saiu é que a gente pode compreender que iria sentir saudade – e ela ficou pairando no ar, “fria, cruel, desumana”.
Talvez eu devesse dizer muito mais, mas o mais importante é você saber que em tudo isso que eu escrevi não há exagero – por que você foi e é um amigo muito especial Pra todos nós.
Felicidades.
Lazzarotti (73/029)
O material que encaminho é uma carta, ou manuscrito, mas diria mesmo que foi um desabafo que escrevi na frente e verso de uma cartolina, daquelas que vem por dentro das camisas, pois já havia arrumado minha mala e não tinha mais papel disponível. Portanto escrevi naqueles minutos difíceis ,pouco antes de sair do AP na AFA, que se encontrava vazio pois todos estavam em aula.
Não foi encaminhado a ninguém especificamente, e talvez a todos nós. Por isso simplesmente deixei-o dentro do armário e encostei a porta.
Posso te dizer que foi um dos momentos mais difíceis da minha vida, mais do que deixar a força aérea, foi ter que deixar meus amigos, a nossa turma de 73. Somente naquele momento percebi como seria difícil e como eram fortes os nossos vínculos.
Porém, estava feito. Não havia mais como mudar. O vôo solo é também um momento muito difícil, você está sozinho dentro do avião, mas sabe que quando pousar, lá estarão seus amigos de braços abertos para recebê-lo.
Deixar a FAB é mais difícil, pois você decola em um vôo igualmente sozinho, apenas que dessa vez sem pista para retornar e sem amigos para abraçá-los quando pousar.
Digo isso para ressaltar como foi e como é importante ter uma associação da Turma, como é importante saber dos amigos e manter contato. Isso pra mim foi fundamental pois se tive forças para continuar e superar toda sorte de dificuldades, foi lembrando-me a cada dia da nossa turma, do que aprendemos e dos nossos ideais.
Não poderia decepcioná-los jamais. Tenho certeza que assim como eu, muitos outros também seguiram em frente, amparado na amizade da turma de 73
Por isso, Caro Yasuda , sou muito grato a todos mas especialmente ao Lazzarott e ao Úmile nesse período quando deixei a FAB, pelas palavras de amizade que recebi através de cartas, algumas das quais te encaminho agora, para arquivo e mesmo consulta a quem tiver interesse.
Um abraço
Nogueira 73/038
Texto escrito pelo Nogueira (73/038) em cartolina "Alma" de camisa, desaparecido deste então, foi encontrado na Arca da Aliança
No primeiro dia que aqui pisei, eu escrevi minhas impressões sobre a AFA. Tudo que senti que pensei, todas as apreensões e dúvidas com relação ao futuro foram escritas no meu diário de bordo. Hoje, quando deixo essa Academia a qual já havia me acostumado e a qual aprendera a amar, não poderia deixar de escrever como me sinto.
É um sentimento estranho que normalmente fica acomodado, mas que começa a crescer, a crescer, a medida que se aproxima a hora de partir definitivamente. É uma sensação de alegria e tristeza, de vazio e preocupações, é como se nossa cabeça girasse, é como estar em órbita, perde-se a noção das coisas, apenas os sentimentos, por mais que se queira sufocá-los, apenas eles existem e marcam sua presença.
Sinto que está sendo arrancado da minha alma, pequenos pedaços, e apesar de não serem pedaços de matéria, sangram profundamente.
A vida é estranha, as vezes, fria, insensível, cruel, desumana . O destino nos leva a determinadas partes, nos afeiçoa a determinadas coisas e pessoas e depois nos dá uma ordem, parta, deixe aquilo que você despreocupadamente ama. Não há como lutar, como enfrentar, porque é preciso ser feito, tem que ser feito, mas porque. Por tudo e por nada, eu não entendo, não quero entender pra não sentir mais ainda.
Muitos já passaram pelo que passei, e já sentiram o que sinto. A pior coisa do mundo é ter que partir, abandonar os amigos, as coisas já costumeiras,deixar aqueles aos quais já tínhamos nos afeiçoados como irmãos, deixar aqueles que estiveram ao nosso lado e nos conheceram, na manifestação sem obstáculos da nossa personalidade, deixar aqueles que sofreram o que sofremos e sorriram o que sorrimos.
Deixar sabendo que a volta é difícil, deixar sabendo que possivelmente jamais viveremos as mesmas situações, que jamais passaremos os mesmos momentos. Saber que aqueles que fizeram parte da nossa vida, aqueles que deixaram seus nomes escritos nas páginas do livro da nossa vida, não viverão mais a nossa realidade. Não...,viverão sim, viverão num lugar ainda mais importante,ainda mais inesquecível, viverão em nossas mentes e em nossos corações. Viverão na galeria daqueles que jamais serão esquecidos, na galeria dos verdadeiros amigos.
Parto fisicamente, minha alma é infinita, interminável, como aquele que a criou, e por isso ela está em todos os lugares que eu amo, e pertence a todos aqueles que sintam a importância de nunca se deixar as coisas sem um toque de beleza e amizade. Minha alma fica aonde não posso ficar ela jamais parte, ela torce e pede para que tudo continue a correr bem e para que o perfeito equilíbrio da vida, jamais seja afetado.
Nogueira 73/038 1976
Carta do Lazzarotti (73/029) para o Nogueira (73/038)
SBYS, 11 DE AGOSTO DE 1976
Prezado Nogueira,
Aqui está tudo bem, graças a Deus. Todo mundo meio casado, reclamando férias, mas tocando o barco pra frente.
Talvez v. estranhe eu estar escrevendo novamente. Em parte é para suprir a falta de assunto da primeira carta, que creio já deve ter chegado aí. Estou escrevendo motivado principalmente por um “manuscrito” que achei hoje, caído dentro do seu armário semi- aberto.
É até engraçado, pois faz tanto tempo que você saiu e só hoje esse papel aparece . E olha que o seu armário sempre esteve aberto, até parece que aqui dentro a gente não tem tempo de reparar nas coisas que ficam a nossa volta. Hoje, acho que o vento soprou mais forte - e eis que eu avisto um papel escrito nos dois lados, que você escreveu, ao que parece, no dia em que iria viajar – creio que você se lembra.
Vi também a sua garrafinha de vinho – eu já a tinha visto outras vezes e quando a vejo, tenho a impressão que você ainda está aqui, dando alegria ao despertar da moçada. O pessoal acorda com uma cara feia que dá medo – e eu não me excluo.
Mas voltando a falar do “manuscrito” eu confesso que fiquei impressionado ao lê-lo. E me senti obrigado a escrever, pelo menos pra você sentir que tudo aquilo que você sentiu alguém pôde compreender. Você traduziu exatamente aquilo que todos nós temos medo de vir as sentir um dia – a gente sabe que na hora de partir acontecem tais coisas.
Eu queria dizer pra você qualquer dia – não disse na outra carta – que no dia que você saiu, ficou pairando algo estranho aqui no apartamento, só que ninguém sabia explicar o que era. O Úmile estava bastante emocionado. Todos estavam – mas também queriam ver você partir alegre, por isso disfarçavam.
Em resumo, acho que só na hora que você saiu é que a gente pode compreender que iria sentir saudade – e ela ficou pairando no ar, “fria, cruel, desumana”.
Talvez eu devesse dizer muito mais, mas o mais importante é você saber que em tudo isso que eu escrevi não há exagero – por que você foi e é um amigo muito especial Pra todos nós.
Felicidades.
Lazzarotti (73/029)
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